Por Fredric Michael Litto (Brasil) é presidente da Associação Brasileira de Educação a Distância, tem título de Ph.D pela Universidade de Indiana (EUA) e Livre Docência na Universidade de São Paulo (USP). Litto foi eleito, em 2007, membro do Comitê Executivo, composto de seis especialistas internacionais, do ICDE-Conselho Internacional de Educação a Distância (cuja sede está em Oslo, Noruega), para um mandato de 2008 a 2011. Litto serviu como consultor do Banco Mundial na área de aprendizagem a distância. Em 2006-2007, ocupou a "Cátedra Rio Branco" no Instituto da Educação da Universidade de Londres.
O Brasil começou suas atividades de Ensino a Distância (EaD), com cursos por correspondência, no fim da década de 1930, ou 80 anos após o início de tais atividades educacionais na Europa e de 50 anos na América do Norte. Na década de 1970, o Brasil era um dois países líderes de EaD no mundo, com cursos via televisão, rádio e material impresso. Mas nas duas décadas seguintes, perdemos essa liderança por causa da descontinuidade governamental em projetos de EaD.
A retomada brasileira de importância no cenário internacional começou na segunda metade da década de 1990 com o início do Telecurso2000 (que tem uma média de 500.000 alunos por ano), e a aprovação da Lei de Diretrizes e Bases (1996), que permitiu a modalidade de EaD no ensino superior, estabelecendo a equivalência plena de diplomas obtidos presencialmente e pela EaD. Nos últimos anos as regulamentações federal e estadual que governam a EaD têm progredido cada vez mais, propiciando seu amadurecimento (aceitação de diversidade pedagógica e incentivos à inovação). Mesmo assim, aparecem, de quando em quando, conselhos estaduais de educação e conselhos regionais profissionais, que, numa clara demonstração de uma "visão nostálgica" de aprendizagem, tentam discriminar a EaD, em plena desobediência à lei e pela ignorância do sucesso da EaD mundo afora.
Em termos práticos, as instituições brasileiras que usam a EaD para o ensino médio, profissionalizante e superior realizam seus trabalhos com qualidade igual, e em alguns casos superior, à observada no exterior. Talvez o único senão esteja na prática brasileira de substituir livros verdadeiros como material de leitura (a prática tradicional na Europa e América do Norte), por "apostilas", que representam uma "redução" do conteúdo ao qual o aluno está exposto, e futuros profissionais com conhecimentos mais superficiais.
Para quem trabalha profissionalmente com EaD, o resultado positivo conseguido no ENADE em 2005 e 2006 - em que 9 de 13 áreas avalidadas os alunos da EaD tiraram notas melhores que os alunos dos cursos presenciais -, é comemorável mas não é nenhuma surpresa. Enquanto o ensino presencial (alunos e o professor ocupando, juntos, o mesmo espaço físico e temporal) depende, para seu sucesso, da "inspiração" do professor durante a aula (e como fica se o professor não tiver motivo para se sentir inspirado num determinado dia?)..o EaD nunca é feita por um único indivíduo-é feita por uma equipe de 6 a 8 pessoas, cada membro contribuindo com sua especialidade (conteúdo, design instrucional, design gráfico, técnicas de avaliação, programação computacional, além de outras), conseqüentemente criando um "produto" (o material e conteúdo do curso) superior, mais burilado e não dependente de uma "inspiração" imprevisível.
O preconceito e a falta de informação ainda atrapalham um pouco da expansão do EaD no Brasil, mas cada vez menos. Os mais resistentes em aceitar a eficácia educacional e a importância social da EaD são pessoas conservadoras, que têm uma visão estática e nostálgica do mundo, não aceitando mudanças em geral. Eles dizem: "Não vi, e não gostei!", e não oferecem nenhuma outra solução para os problemas da sociedade moderna: como dar oportunidade de acesso ao conhecimento e certificação de competências para todos que querem, e como substituir o atual paradigma educacional de "um único tamanho serve para todos" por algo mais "individualizável", flexível e economicamente sustentável. Felizmente, essas pessoas estão desaparecendo, substituídas por aquelas que compartilham de uma visão mais democrática da função da educação, de conhecimento da utilidade das novas tecnologias da informação e da comunicação, e do potencial da aprendizagem auto-dirigida para aqueles que querem gerenciar seus próprios estudos, algo propiciado pela Web.
O que me preocupa é que existe muito pouco intercâmbio de informação com relação à EaD entre os países da América Latina. Uma pesquisa sobre esta questão de regulamentação de EaD nos países da América Latina está em curso atualmente no âmbito do International Council for Open and Distance Learning-ICDE, e pode ser que tenhamos alguns resultados até o fim deste ano ou o início de 2009.
O que comemoro é a realização do Seminário Internacional de Educação a Distância, a ser realizado no dia 16 de junho, pela Comissão de Educação e Cultura da Câmara em parceria com a CNC, porque leva ao conhecimento dos responsáveis pela legislação que governa a educação em nosso país as tendências internacionais de aprendizagem formal e informal, acadêmica e não-acadêmica. A importância disso é garantir que o Brasil não volte a assumir o papel do avestruz (como fez no fim da década de 1970, em nas décadas de 1980 e 1990). Trata-se, também, de uma ótima oportunidade para a comunidade de educadores e outros profissionais envolvidos na EaD, ouvir os pensamentos dos nossos legisladores com relação a essa modalidade de aprendizagem, suas esperanças para as formas de sucesso da EaD dentro de todo o panorama da educação, e suas sugestões para alcançar as metas mais desejáveis para a sociedade brasileira, expressas pelos representantes do povo brasileiro.
Afinal, se considerarmos que o Anuário Estatístico de EaD
-levantamento realizado anualmente pela Associação Brasileira
de Educação a Distância (ABED) e o Instituto Monitor,
com apoio do MEC-, em 2008, revelou que mais de seiscentos mil executivos
e funcionários de empresas no Brasil realizavam sua "educação
corporativa" através de EaD, seria incongruente para as empresas
rejeitar candidatos com diplomas obtidos por EaD. E se considerarmos que
numa "sociedade de conhecimento" todos aqueles economicamente
ativos vão ter que atualizar seus conhecimentos continuamente, e
que a EaD representa a maneira mais conveniente de atender a essa necessidade.....então
acho tranqüilo prever um futuro incomensuravelmente brilhante para
a EaD.