Entrevista

Ensino a distância: capilaridade, flexibilidade, menor preço e qualidade

O especialista Joao Vianney Valle Dos Santos é um dos palestrantes do Ciclo de Seminários Internacionais Educação no Século XXI 2008, que discutirá a Educação a Distância (EAD), no dia 16 de junho. Diretor do campus UnisulVirtual - Unidade de educação a distância da Universidade do Sul de Santa Catarina (UNISUL), psicólogo, mestre em Sociologia Política e Doutor em Ciências Humanas, em entrevista Vianney discorre sobre EaD no Brasil, preconceitos, relações com o MEC e recentes resultados alcançados pelos alunos de EAD.

Por Marcos Linhares - Ascom/Ciclo

Como avalia a experiência brasileira em EaD em relação a outros países como Inglaterra, França, Espanha e Estados Unidos?

Joao Vianney Valle dos Santos - O Brasil está em dia com os países mais avançados em relação ao uso das tecnologias digitais na educação a distância. Não temos uma tradição em inovação tecnológica, mas o país tem uma competência de usabilidade muito grande. Assim, a universidade virtual no Brasil não é muito diferente daquela que se faz nos Estados Unidos, Espanha ou Inglaterra. Os recursos técnicos e as metodologias são equivalentes. Porém, existe uma diferença estrutural em relação à natureza dos cursos oferecidos e do propósito que se tem com a educação a distância. O Brasil implantou o ensino superior tardiamente em relação a estes países, e ainda temos uma parcela muito pequena da população com acesso ao ensino universitário. O nosso desafio com a EaD ainda é o de promover a democratização do acesso ao ensino de graduação, com maior capilaridade, flexibilidade, menor preço e com qualidade. Nos estados Unidos, na França, Espanha e Inglaterra, por outro lado, o ensino a distância é muito utilizado para na pós-graduação ou para promover uma educação continuada independente de certificação, com matrícula em cursos livres de formação geral ou profissional.

O Sr. Comemorou os resultados do Enad que apontaram melhores resultados dos alunos de EaD em relação aos alunos presenciais?

Joao Vianney Valle dos Santos - O mês de setembro de 2007 entrou para a história da educação a distância no país como a data em que o mito de que a formação obtida por esta modalidade não seria de boa qualidade. Os resultados acumulados do ENADE em 2005 e 2006 são a expressão maior de avaliação por parte do Governo Federal, são incontestes e têm validade científica. Ao ficar comprovado que em 9 de 13 áreas avalidadas os alunos da EaD tiraram notas melhores que os alunos dos cursos presenciais o mito de que a EaD teria uma baixa qualidade caiu por terra, mas ainda há que se trabalhar junto à sociedade, a organismos de classe e mesmo setores de governo para que a educação a distância esteja livre de preconceitos.

O preconceito e a falta de informação ainda atrapalham a expansão do EaD no Brasil?

Joao Vianney Valle dos Santos - Sim. Ciência e senso comum não caminham juntos. Há um intervalo de tempo até que as conquistas científicas sejam assimiladas pela sociedade. Até hoje há quem não acredite que o homem pousou na Lua, e há quem tente enfrentar epidemias espantando miasmas fantasmagóricos. Com a educação a distância não é diferente. As pesquisas já mostraram que a qualidade da aprendizagem pode ser mesmo superior à do ensino presencial. Mas, as resistências corporativas, os preconceitos e mesmo conflitos de natureza pedagógica de algumas correntes educacionais parecem obliterar a visão de muitas pessoas e organizações, impedindo assim que elas possam interagir com a educação a distância e buscar ali as aplicações possíveis para as suas carreiras ou áreas de estudo. A EaD não é uma poção mágica, muito ao contrário, tem limitações e desafios a serem vencidos, mas pode contribuir em muito para descontar o atraso educacional e cultural que o Brasil ainda vive.

Como tem sido a receptivdade do mercado em relacao aos diplomas de EaD de graduação?

Joao Vianney Valle dos Santos - Nós estamos iniciando uma longa trajetória de diálogo com a sociedade. Somente a partir do ano de 1999 tivemos os primeiros alunos diplomados em cursos de graduação a distância no país. Em 2006 foram exatos 25.804 alunos formados. O número ainda é pequeno, mas os resultados na sociedade já começam a aparecer. Ali por 2002 e 2003 os alunos diplomados eram pricipalmente professores que já estavam no exercício da profissão, os chamados 'professores leigos'. Eles já estavam empregados, e o diploma apenas garantia o prosseguimento na carreira. No estado do Mato Grosso, por exemplo, após a formatura na Universidade Federal de Mato Grosso muitos deles buscaram um crescimento profissional, fizeram outros concursos e alcançaram ótimas classificações. Outra conquista que verificamos foi de ordem pessoal, com a melhoria da auto-estima de alunos adultos que pela educação a distância conquistaram a formação superior, contribuindo tanto o conhecimento quanto o diploma para a melhoria do status social do egresso. E temos outros resultados importantes para somar. Por Aqui na Unisul, onde eu trabalho, um nosso ex-aluno do curso de graduação em Gestão Financeira foi aprovado para cursar mestrado na Universidade de Harvard, considerada a melhor do mundo. E, pela classificação que alcançou ganhou uma bolsa de estudos do banco mundial. Ou seja, os resultados do ENADE encontram reflexos positivos no acompanhamento dos alunos que se formaram em cursos a distância. Agora em 2007 e 2008 teremos já um grande número de alunos formados em carreiras como administração, contabilidade e diversos cursos tecnólogos,e acompanhar a trajetória profissional e pessoal deles pode trazer muitas boas surpresas.

O MEC tem sido um bom parceiro em relacao ao EAD?

Joao Vianney Valle dos Santos - O MEC vive uma transição em relação à Educação a Distância. Durante os anos de 2004 a 2007 o Ministério e o Conselho Nacional de Educação receberam muitas denúncias de mau uso da educação a distância, questionamentos sobre a qualidade da formação por educação a distância, e também muitas pressões de corporações e de instituições de ensino que se sentiam ameaçadas pelo crescimento da educação a distância. A resposta do MEC às denúncias e às pressões foi criar mecanismos mais rígidos de regulação para o credenciamento de instituições, autorização e reconhecimento de cursos. Mas, nestes três anos houve também um amadurecimento por parte das instituições e a consolidação de diversas pesquisas em instância de doutorados e de mestrados mostrando caminhos para a oferta de uma educação a distância de qualidade. Os resultados do ENADE foram, na minha opinião, o divisor de águas. Ou seja, ao mesmo tempo em que o MEC produzia um rearranjo na legislação, para aumentar o controle sobre a EaD em busca de maior qualidade, surge uma pesquisa oficial do INEP mostrando que era no ensino presencial que estava a menor qualidade naquele instante, considerados os intervalos estatísticos apresentados nos resultados da avaliação do ENADE. Isto significa que o país tem hoje novas evidências científicas que o MEC pode utilizar para buscar a qualidade na formação dos egressos da EaD, sem que sejam apenas normas de interposição de condicionantes construídas a partir de pressupostos de uma ou outra corrente de teorias educacionais, de pressupostos metodológicos, ou de regime ou sistema de tutoria. O diálogo do MEC com a comunidade acadêmica está se intensificando, e eu tenho certeza que chegará a bom termo. O ministro Fernando hadad tem repetido que o compromisso dele é com a qualidade. O secretario de EaD, professor Carlos Bielschowsky, da mesma forma, tem repetido que o que interessa é qualidade. Então, estamos todos de acordo nisso e vamos trabalhar.

Como avalia as politicas de creditação e credenciamento de EAD no país em relação aos vizinhos da América Latina?

Joao Vianney Valle dos Santos - O Brasil foi pioneiro na legislação de educação a distância na América Latina. Eu mesmo viajei por divesos países divulgando em palestras e conferências como o MEC tinha tratado esta questão a partir do final da década de 1990. Mas, o que mais chamava a atenção nestes seminários em outros países era o fato de que o Brasil não tinha criado uma instituição pública, de caráter nacional, para oferecer cursos a distância, o que ocorrera já em países muito menores como Equador, Colômbia, Venezuela, Costa Rica e etc. Nestes países os governos tinham criado diretamente universidades públicas a distância, sem que para isso fosse necessário um ordenamento legal prévio, como foi no Brasil. E eles me perguntavam: Mas como, vocês já tem até a Lei, mas não têm uma universidade nacional a distância?

As políticas de credenciamento e de acreditação são muito particulares a cada cultura e ao ordenamento ljurídico que tem. Em muitas culturas não se diferem a modalidade da educação a distância da modalidade presencial, pois o fim e a competência que visam é o mesmo, a formação universitária.

Como avalia esse iniciativa da Comissão de Educação da Câmara em promover desde o ano passado, seminários com trocas de experiëncias educacionais internacionais? O Legislativo dá um avanço?

Joao Vianney Valle dos Santos - Eu considero este seminário de 2008 pela Comissão de Educação e de Cultura uma excelente oportunidade de alumbramento para todos nós. Teremos convidados internacionais de expressão, com tradição e comprovada competência em educação a distância, e que poderão trazer contribuições e indagações para todos nós. E, também, poderemos apresentar a eles e aos parlamentares como anda a nossa EaD no Brasil. E vai muito bem, graças ao empenho de milhares de pesquisadores em universidades de todo o território. O Brasil provê cursos a distância para todos os continentes, exporta conteúdos já formatados para educação a distância. Na UnisulVirtual temos atuado desde 2005 em cooperação com o Exército Brasileiro e outras organizações de exigência e envergadura para desenvolver modelos flexíveis e de efetiva aprendizagem para fazer chegar a educação superior de qualidade a brasileiros onde quer que estejam, e também como local de estágio para universidades européias e latino-americanas que estão implantando educação a distância, o que muito nos honra e desafia.

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