Participando como conferencista no Seminário Internacional de Educação a Distância, realizado nesta segunda-feira, 16, no auditório Nereu Ramos da Câmara dos Deputados, em Brasília, onde apresentou um panorama atual do ensino a distância no país, o professor João Vianey (diretor da UnisulVirtual – campus de educação a distância da Universidade do Sul da Santa Catarina) afirmou que um dos principais desafios da EaD em nosso país é a mudança da cultura tanto do ponto de vista da regulamentação e bases legais, quanto do aprimoramento e convergência dos vários sistemas de ensino atualmente vigentes no Brasil, o que, segundo ele, tem causado diversos conflitos e crises de identidades. Vianey concedeu entrevista ao repórter Almir Oliver e afirmou que o ensino a distância no Brasil e no mundo está caminhando a passos largos para uma total convergência entre o ensino presencial e o virtual. "O futuro do ensino a distância é a educação flexível, onde o aluno poderá escolher e migrar a qualquer tempo de uma modalidade para a outra, sem grandes diferenças", defende.
QUAIS OS DESAFIOS DO ENSINO A DISTÂNCIA NO BRASIL, ATUALMENTE?
JV – O Brasil precisa pensar o sistema educacional como um direito para todos, procurando urgentemente canais de democratização da educação. Um dos mais viáveis é o casamento da tecnologia com a educação, como tele-educação via satélite, com ou sem pólos de apoio presencial e o ensino virtual, via banda larga. Um outro desafio premente que o país precisa resolver é em relação às bases legais e da própria legislação. Atualmente, há uma total desordem nessa área, ocasionando diversos conflitos entre os entes federativos, uma vez que existem sistemas de educação federal, estaduais e municipais, cada qual com suas legislações próprias e nenhuma interação entre si.
QUAL O PERFIL DO ALUNO DO ENSINO A DISTÂNCIA?
JV – O estudante de EaD é preponderantemente casado, tem filhos, é menos branco, mais pobre, contribui mais para o sustento da família, e tem pais com menor escolaridade em relação ao aluno de cursos presenciais.
COM ESTE PERFIL, O QUE SE PODE ESPERAR EM TERMOS DE AVALIAÇÃO DOS ALUNOS E DOS CURSOS OFERTADOS?
JV - Segundo dados do Enade/2005-2006, os resultados alcançados pelos alunos de EaD foram bastante satisfatórios e, em muitos casos, superiores aos resultados dos alunos de ensino presencial, o que demonstra que muitos mitos referentes ao ensino a distância estão caindo por terra, além da diminuição do preconceito com esse sistema de ensino no país. Talvez, alguns fatores possam explicar uma performance melhor dos alunos de EaD em relação aos alunos presenciais, dentre as quais: os alunos a distância estudam mais horas por semana, recebem mais atenção dos professores/tutores, encontram maior vinculação das disciplinas com os currículos e, principalmente, preferem o estudo autônomo. Diante de tudo isto, a tese de que o aluno de EaD teria um resultado de aprendizagem inferior ao aluno do ensino presencial está refutada.
AFINAL, VALE OU NÃO VALE O DIPLOMA CONQUISTADO PELO ENSINO A DISTÂNCIA NO BRASIL?
JV - Há vários conflitos referentes ao diploma obtido na EaD, porém, o mercado de trabalho já vem reconhecendo e dando credibilidade aos profissionais formados por essa modalidade de ensino, mesmo por quê, a lei é bastante clara: deve haver plena equivalência entre os dois sistemas e não se permitirá discriminação entre os diplomas. No entanto, recentemente o Conselho Federal de Biologia negou o registro profissional a uma aluna egressa do sistema de ensino a distância, no Rio de Janeiro; a OAB tem se manifestado contrária à criação de cursos de direito por EaD e o próprio governo federal vem exigindo nos editais de concursos públicos diploma de "cursos reconhecidos pelo MEC". Apesar desses obstáculos e conflitos, o ensino a distância vem crescendo vertiginosamente no Brasil, superando a extraordinária marca de duzentos mil alunos matriculados nos 349 cursos de ensino a distância ofertados, segundo dados do Ministério da Educação, obtidos no censo INEP/2006.
NA SUA OPINIÃO, QUAL O FUTURO DO ENSINO A DISTÂNCIA NO BRASIL?
JV – O futuro da educação a distância (EaD) é
o fim da educação a distância. Eu explico: a EaD e o
ensino presencial vivem uma crise de identidade recíproca –
um quer ser o outro. Há instituições de ensino a distância
praticando a modalidade semipresencial, e escolas de ensino presencial querendo
se transformar em semivirtual. Ou seja, hoje em dia observa-se uma convergência
entre as diversas modalidades de ensino, visando uma educação
mais flexível e utilizando-se das ferramentas tecnológicas
ao alcance de todos. E isso está ocorrendo no mundo inteiro. Na Comunidade
Européia, por exemplo, estão nascendo universidades virtuais
que replicam na internet e na telefonia de última geração
as atividades de um campus tradicional, inclusive com aulas expositivas.
No Brasil, desde o final da década de 1990, a Unifesp – Universidade
Federal de São Paulo oferece um amplo conteúdo on-line para
os alunos de medicina, sem prejuízo algum para a aprendizagem. Dessa
forma, o cenário brasileiro e mundial para o ensino a distância
é inimaginável, pois a cada dia surge um novo patamar de acesso
a conteúdos, atividades, interações e entretenimento.
A tecnologia de Comunicação Digital constituiu-se em um dos
fenômenos mais rápido da história. O que se vislumbra
num futuro não muito distante é a e-university, ou seja, o
casamento entre conteúdos, tecnologias, rede e certificação.
Fonte: Almir Oliver/ Ascom-Ciclo