Entrevista

FRANÇOIS MARCHESSOU (FRANÇA) – "Não há uma comunicação entre os especialistas de educação nos diversos países latinos"

Um dos três conferencistas internacionais convidados para o Seminário Internacional de Educação a Distância, o professor François Marchessou (França), é consultor em tecnologia educacional e educação a distância em bases internacionais, atuou em programas e projetos de avaliação de educação a distância em diferentes países, como Argentina, Ruanda, Moçambique, Brasil, países andinos, entre outros. No Brasil, é um dos criadores do curso transnacional em Educação a Distância, na Universidade de Brasília. Sua participação no Seminário promovido pela Comissão de Educação e Cultura da Câmara dos Deputados e pela Confederação Nacional do Comércio, ocorrido em Brasília, nesta segunda-feira, 16, refletiu o cenário da EaD na América Latina.

Para o acadêmico da Universidade de Poitiers (França) e especialista em ensino a distância para a América Latina, "esse sistema de ensino funciona precariamente (ou nem funciona) nessa região, porque não há uma comunicação entre os especialistas de educação nos diversos países latinos." O professor Marchessou afirmou ainda que precisaria haver um maior nível de articulação entre os profissionais que lidam com educação a distância na América Latina, a fim de quebrar o monopólio de especialistas que controlam o fluxo de informações nessa região que, em suas palavras, formam verdadeiras "máfias" de supostos entendidos no assunto. Para ele, não há bloqueios mentais nessa região, mas sim uma espécie de "complexo de inferioridade em relação à América do Norte e Europa". Leia abaixo a entrevista.

1 – PROFESSOR, FAZENDO UMA ANÁLISE COMPARATIVA, COMO OS SISTEMAS DE ENSINO A DISTÂNCIA FUNCIONAM NOS DIVERSOS PAÍSES DA AMÉRICA LATINA, HOJE?

FM – Apesar de se utilizarem da mesma língua, ou seja, o espanhol, a disseminação do ensino a distância na América Latina está ainda nas fronteiras dos países. Existem pouquíssimas iniciativas transversais. Hoje, está começando a haver algum apoio da Comunidade Européia. No entanto, falta comunicação entre os vizinhos. Uma característica que começa a aparecer em países é o avanço tecnológico e a conexão com internet banda larga (México e Chile). Um outro elemento marcante é o avanço do processo econômico, com elevação de renda, que permite aproveitar os novos recursos. Na América Latina, o Brasil, sem dúvidas, é o que está mais avançado no processo de ensino a distância. Aqui, há bastante comunicação entre os diferentes atores que trabalham com esse sistema de ensino.

2 – QUAIS AS DIFERENÇAS ENTRE OS MODELOS DE EaD NOS PAÍSES AFRICANOS E NA AMÉRICA LATINA/BRASIL?

FM - O modelo de ensino a distância mais copiado e mais seguido é, sem dúvidas, o brasileiro. A imagem do Brasil em Moçambique é muito boa e já existe um sistema de bolsas de estudos entre os dois países nessa área. Os países lusófonos têm com o Brasil uma troca muito forte de conhecimentos e informações sobre as práticas de educação a distância.

3 – PODERIA NOS DAR MAIORES INFORMAÇÕES SOBRE O CURSO TRANSNACIONAL QUE O SENHOR AJUDOU A FUNDAR NA UnB?

FM – O curso existe apenas em nível de Mestrado. É um programa de 2 anos, com bolsa de 20 mil euros/ano, para a Universidade de Poitiers, França, em convênio com a Universidade de Brasília. O objetivo é formar uma rede de jovens colegas professores-pesquisadores, convidados a participar de projetos de integração entre as duas universidades. É um curso bastante procurado, tanto aqui como lá na França.

4 – COMO O SENHOR AVALIA AS EXPERIÊNCIAS DO BRASIL EM ENSINO A DISTÂNCIA?

FM – Em 1994, participei do 1º curso de formação de multiplicadores de ensino a distância no Brasil. Acho que foi uma boa coisa para o País. De lá, saíram experiências e especialistas muito importante para a divulgação e disseminação da EaD no País, como o professor João Vianey e a Universidade Aberta – isso é maravilhoso. Hoje, posso notar o processo evolutivo do ensino a distância. No Brasil, o bom é a inovação constante das idéias e práticas; o problema é a falta de continuidade dos projetos.

Fonte: Almir Oliver/Ascom-Ciclo


 

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