Entrevista

Olhos para o Ocidente

Professor da Faculdade de Ciências Sociais da Universidade de Hong Kong, Ka Ho Mok é um pesquisador de políticas comparadas de educação. Seus trabalhos estudam principalmente as mudanças nas políticas educacionais e de desenvolvimento do leste asiático, que tem sur­preendido pelos índices de aumento da oferta e qualidade no ensino superior.

Ka Ho estará no Brasil em outubro para participar do seminário internacional Financiamento do Ensino Superior: uma visão comparada, a ser realizado na Câmara dos Deputados, em Brasília. O evento vai reunir especialistas nacionais e internacionais para apresentar as estratégias e os modelos adotados em países da Europa, Ásia e América Latina.

Autor de diversos livros, entre eles, Education Reform and Education Policy in East Asia (London: Routledge, 2006) e Globalization and Higher Education in East Asia (Marshall Cavendish Academic Press, 2005), Ka Ho concedeu entrevista por e-mail à revista Ensino Superior, na qual comenta as conquistas e os desafios que o setor ainda enfrenta na Ásia.

Ensino Superior - Quais são as principais conclusões que o senhor irá apresentar no seminário internacional que acontecerá no Brasil no próximo mês?
Os principais pontos de minha apresentação serão sobre o crescimento da privatização nos financiamentos educacionais na Ásia e sobre as mudanças na administração universitária, que tem se aproximado cada vez mais da gestão corporativa. 

Ensino Superior - Quais são as principais políticas desenvolvidas no ensino superior asiático atualmente?
O desenvolvimento do ensino superior na Ásia passa, aos poucos, por um processo de privatização, introdução de estratégias de marketing e de governança corporativa. Muitos governos asiáticos tentaram adotar idéias e práticas do neo-liberalismo para transformar a gestão da educação superior na região. Além disso, são proeminentes, por todo o continente, a internacionalização e as universidades com reconhecida excelência mundial. 

Ensino Superior - Como as universidades asiáticas estão se internacionalizando? Há intercâmbio de estudantes?
Sim. Há intercâmbio estudantil e de funcionários, promoção da colaboração internacional, desenvolvimento de programas conjuntos com universidades estrangeiras e execução de benchmarketing.

Ensino Superior - China e Índia são países particularmente reconhecidos pelo grande salto de qualidade que deram na educação em pouco tempo. Como isso foi possível?
Tanto a China quanto a Índia foram tentadas a fazer o uso do marketing e do setor privado para contemplar a crescente expectativa de seus cidadãos por melhorias na educação superior. Ou seja, criar novas oportunidades. Desta maneira, o crescente avanço do setor privado tornou a educação superior viável.

Ensino Superior - A China conseguiu aumentar o número de estudantes no ensino superior e ter algumas de suas universidades classificadas como as melhores do mundo. Como o país conseguiu manter a qualidade do ensino nesse processo?
O Ministério da Educação chinês introduziu formas de benchmarketing para aumentar o nível de educação universitária no país. Lançou mão de diversos sistemas de averiguação para assegurar o crescimento e a qualidade do ensino superior. E fez reformas estratégicas para elevar algumas universidades ao nível de excelência mundial.

Ensino Superior - Em termos de financiamento para estudantes, há alguma experiência de sucesso sendo realizada na Ásia?
Diferentemente do passado, quando vários governos asiáticos financiavam intensamente os estudantes, muitos tentam agora diversificar o financiamento do ensino superior. Com isso, as universidades têm de buscar múltiplas fontes de financiamento. As bolsas de estudo têm se tornado mais populares e as universidades são geridas como corporações. O sistema de financiamento de Hong Kong é muito bem sucedido. O governo chinês também introduziu um sistema de financiamento, enquanto o governo de Taiwan ofereceu bolsas internacionais aos estudantes e Cingapura utilizou o fundo de providência (Central Provident Fund) para auxiliar na educação dos seus estudantes.

Ensino Superior - Quais são os desafios que ainda precisam ser enfrentados pelo ensino superior na Ásia?
Balancear os desafios globais para a criação de uma universidade reconhecida como de excelência mundial, preservando as características locais e regionais onde estão inseridas; eliminar a desigualdade na oferta da educação e assegurar bons níveis educacionais, já que a educação superior passa por um processo de marketing.

Ensino Superior - As universidades asiáticas poderão competir com as norte-americanas na atração de estudantes que serão os futuros líderes globais? O senhor tem visto mudanças nesse cenário?
Ainda não, mas acredito que isso será possível na China, Índia, bem como em outros países asiáticos, caso a economia da região continue no ritmo de crescimento atual, tornando-se, assim, mais influente em sua dimensão geopolítica. Com o crescimento da influência da China e da Índia nas questões globais, e a proporção de chineses e indianos em diferentes partes do mundo, vai se criar a necessidade de povos estrangeiros entenderem mais sobre os diversos aspectos culturais desses países

Ensino Superior - O que o Brasil pode aprender da experiência asiática no ensino superior?
Isto depende da visão nacional, da missão brasileira no setor. Não se pode apenas copiar políticas e práticas adotadas em outros países. Porém, imagino que expandir o ensino superior apressadamente traria conseqüências negativas. Por esta razão, deve-se desenvolver o ensino superior gradualmente.

Fonte: Juliana Holanda - Revista Ensino Superior



 

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